Muitas pessoas chegam à clínica relatando uma dificuldade recorrente: topar fazer o que o outro quer para não correr o risco de desagradar, evitar decidir, adiar se posicionar… Em vez de escolher, esperam que alguém escolha por elas. Em vez de falar, permanecem em silêncio. A esperança, quase sempre, é a mesma: não ser mal interpretado, não ser julgado, não causar conflito.
Esse movimento costuma aparecer em situações aparentemente simples — fazer uma pergunta, demonstrar interesse, discordar, impor um limite. Mas, diante da possibilidade de errar ou de passar uma imagem indesejada, o corpo trava, a palavra some e a neutralidade parece a opção mais segura.
A questão é que essa neutralidade não é, de fato, neutra.
A ilusão de não comunicar nada
Existe uma fantasia bastante comum de que, ao não se posicionar, conseguimos suspender o olhar do outro. Como se o silêncio fosse um território vazio, onde nenhuma leitura é feita. Mas, nas relações humanas, isso simplesmente não acontece.
Mesmo quando não dizemos nada, algo é comunicado: insegurança, medo, afastamento, submissão, indiferença — ou qualquer outra leitura possível. O outro continuará interpretando, porque interpretar é inevitável.
Ou seja, o esforço para não “passar uma imagem errada” não impede que uma imagem seja formada. Ele apenas retira da pessoa a possibilidade de participar ativamente dessa cena.
Um exemplo fora da clínica
Lembro de quando reformei meu consultório e pensei em pintar uma parede de terracota. A ideia me agradava, mas logo veio a insegurança. Psicólogos — especialmente os que trabalham a partir da psicanálise — não deveriam ser neutros? Paredes brancas, sem quadros, sem marcas pessoais, não seriam mais adequadas?
Mas essa reflexão trouxe outra pergunta: e se a escolha pelo branco absoluto também comunicar algo? Talvez um medo de aparecer, de me implicar, de sustentar uma singularidade. Talvez a tentativa de se proteger atrás do que é visto como mais seguro e aceitável.
A ausência de cor, assim como a ausência de palavra, mesmo que não pareça, também é uma escolha — e também produz efeitos.
O custo de abrir mão da própria voz
Quando alguém abdica repetidamente de se posicionar para tentar controlar a forma como será percebido, o custo costuma ser alto: sensação de apagamento, ressentimento, dificuldade de reconhecer desejos próprios, relações assimétricas.
Na clínica, isso aparece como sofrimento psíquico, mas também como uma pergunta silenciosa: “Em que momento eu deixei de existir para caber?”
A psicanálise nos ajuda a pensar que o desejo não desaparece quando é silenciado. Ele retorna — muitas vezes como angústia, culpa ou inibição.
Não é sobre controle, é sobre implicação
No fim das contas, a questão não é se você vai ou não passar uma imagem. Isso acontece de qualquer jeito. A pergunta mais importante é outra:
até que ponto você está disposto a abrir mão da sua voz para tentar controlar como será percebido?
Sustentar uma posição não significa impor-se o tempo todo, nem falar sem considerar o outro. Significa, antes, aceitar que existir implica ser visto — e que não há como escapar completamente disso.
Talvez o trabalho psíquico esteja menos em buscar a neutralidade perfeita e mais em suportar a própria presença.


