O perfeccionismo está mesmo cuidando da sua carreira?

Depois de um vídeo recente, muitas pessoas me escreveram dizendo que gostariam de criar uma página profissional no Instagram, mas se sentem travadas por uma série de receios. Entre eles, um aparece com muita força: o medo de “falar besteira”.

Esse medo costuma vir acompanhado de algumas exigências internas bastante rígidas. A ideia de que, para produzir um conteúdo interessante, seria necessário “inventar a roda”, ter uma sacada revolucionária, ou falar em termos excessivamente técnicos e acadêmicos. Como se só fosse legítimo se expressar quando se tivesse algo extraordinário a dizer — e dito da maneira “correta”.

Mas será mesmo?

E se aquilo que você já faz no seu cotidiano profissional fosse, por si só, suficiente? E se uma pergunta que você respondeu ontem para um cliente também fosse a dúvida silenciosa de muitas outras pessoas que nunca chegaram a você, mas que estão ali, do outro lado da tela?

Quando você já atua na sua área, isso significa que você já movimenta conhecimento o tempo todo. Conhecimento vivo, encarnado na prática, nas conversas que você tem no dia-a-dia. Ainda assim, muitas vezes, a idealização do que um conteúdo “deveria ser” passa à frente de tudo isso. E, nesse movimento, perde-se de vista uma série de aspectos valiosos que já fazem parte do seu trabalho e da sua experiência.

É aqui que o perfeccionismo costuma aparecer de forma especialmente traiçoeira.

Na maior parte das vezes, ele se apresenta como uma instância protetora. Como se estivesse ali para zelar pela sua imagem, pela sua reputação, pela sua carreira. Mas vale a pergunta: na prática, é isso que está acontecendo? Ou será que, sob a justificativa de cuidado, o perfeccionismo está operando como um mecanismo de paralisação?

Quando tudo precisa estar impecável antes de existir, muita coisa deixa simplesmente de existir. Projetos não saem do lugar, ideias ficam retidas, desejos são adiados indefinidamente. A carreira, então, fica mais cuidada — ou mais interrompida?

Do ponto de vista psicanalítico, sabemos que o perfeccionismo frequentemente se articula a um medo profundo de falhar, de ser julgada, de não corresponder a um ideal — muitas vezes impossível. E, nesse cenário, evitar também se torna uma forma de defesa: se eu não faço, não erro; se não me exponho, não sou questionada.

Mas a pergunta que fica é: a que custo?

Como seria se, em vez de buscar incessantemente algo que ainda falta, você pudesse fazer uso daquilo que já tem? Do saber que já circula na sua prática, das conversas que já fazem parte do seu dia a dia?

Talvez o caminho não seja o de produzir algo perfeito, mas o de sustentar o gesto de começar. Mesmo com receio. Mesmo com dúvidas. Mesmo sem garantias.

Porque, muitas vezes, não é a falta de conteúdo que nos paralisa, mas sim o excesso de exigência.

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